Florianópolis, 14 de setembro de 2004.
janeiro 22, 2008
Carta ao Mickey Mouse
Não. Eu não quero ir pra nenhuma Disneylândia pós-adolescente. Isso é muito ruim, começar a escrever com um não. Prometo que termino com um sim.
É chato explicar porque a Turquia, sinceramente eu não tenho certeza. Teria se fosse pra Disneylândia, iria ver o Mickey, só isso. Mas seria mais chato se eu tivesse alguma certeza. Fico feliz por ter esse privilégio de não ter certeza que beira a ignorância. Pelo menos admito isso. Mais que isso, sei que é passageira. Uma ignorância passageira de alguém que se dispõe a passar por ela e admitir é o primeiro passo.
Se soubesse o que eu vou encontrar lá, de verdade, não iria. Ficaria em casa e pediria uma pizza. Pelo menos na pizza em casa pode ter alguma surpresa.
Ainda bem que eu vou. E vou disposto a não comer pizza, mas a comer qualquer coisa de nome turco estranho, menos pizza. Essa eu peço pelo telefone e conhecer a Turquia não.
Talvez seja mais fácil falar das coisas fáceis, que já conheço, como pizza e Mickey Mouse. Mas sinceramente não gosto das coisas fáceis, elas são sem graça, sem surpresas. E isso não vai ter na Turquia.
Ir à padaria lá vai ser difícil, eu não falo turco. E se tiver um português dono de padaria eu troco de padaria, isso eu prometo.
Também prometo não falar de pães, nem de pizzas. Lá devem existir coisas mais interessantes pra se falar. Só ainda não sei quais são, mas quando souber eu falo, até escrevo se for preciso, mas nada de padarias.
Acho que existem lugares mais interessantes que padarias por lá, eu só acho. Aqui existem. Talvez em Portugal não; mas aqui tenho certeza que sim. E isso eu não vou conseguir saber pelo telefone, nem mesmo se pedir pizza. E aqui existe a pizza portuguesa, que talvez lá se chame brasileira, sem nenhum nome turco estranho. Se for esse o nome eu peço, mas não pelo telefone, prometo ir até a pizzaria.
Vou a outros lugares também, mas à Disneylândia não. Vou conhecer outras pessoas e até portugueses, exceto donos de padaria. E outras palavras, outros sabores e dissabores, outras vidas. E se eu não quisesse conhecer outras vidas iria conhecer o Mickey.
Aprender com outros “qualquer coisa” é importante. Vai ser difícil e assim eu gosto. Aprender com os mesmos “qualquer coisa” é fácil, com os outros não. Desaprender é difícil, com “qualquer coisa”, os outros ou os mesmos, que seja. E vou fazer isso, porque é preciso pra que se possa aprender coisas novas. E admitir também é o primeiro passo (os dois primeiros já foram).
Aprender e desaprender e ter a certeza que o próprio aprendizado nem sempre está certo. Nem mesmo na Disneylândia ou na Turquia. E fazer de cada experiência de aprendizado ou desaprendizado um ato de surpresa maior do que um pedido de pizza pelo telefone. Isso sim é importante, agora terminei com um sim.
[turquia]
janeiro 22, 2008 às 5:51 pm
Gostei do blog, escreves bem! Obviamente não concordo com o nome…
Mantenha-me informada quanto aos nosvos textos que for publicar.
Hasta!
Déia