visita

março 24, 2008

Tenho visita em casa. Um amigo. Conheci numa viagem e por isso… sobre isso escrevo. Não sobre as viagem dele… nem sobre as minhas. Viagem só. E existem três perguntas que se faz para saber se valerá, se valeu e se uma viagem vale a pena. Só se tem certeza de que a viagem vai valer à pena, quando se faz a primeira pergunta: “eu iria pra lá?”… e a resposta é não. Aí a viagem vale a pena pelo simples fato de se ir para algum lugar que não se iria… só iria alguém diferente de si mesmo. Um outro eu mesmo iria para um lugar onde eu mesmo não iria. E isso é que faz uma viagem mudar quem viaja. Tornar-se diferente depois de viajar é conseqüência de se deixar tornar diferente pela viagem… e isso se faz antes mesmo de ir… talvez durante o ser. E se ir para um lugar aonde se iria é saber que o ser depois será igual ao ser antes. Por isso todas as pessoas são tão iguais. Sempre vão para os mesmos lugares. Onde iriam antes mesmo de ir. Sem mesmo se deixarem ser diferentes. Aonde iriam todas antes de irem todas. Todas iguais antes e depois. Pessoas iguais sempre fazem viagens iguais. E nada mais chato que uma pessoa igual a todas as outras. Ainda que os lugares sejam diferentes… os lugares aonde vão todas as pessoas se tornam também todos iguais. Existe uma previsibilidade muito grande nas viagens iguais e é justamente por isso que todas as pessoas as fazem. Porque não querem deixar de serem iguais… querem ser diferentemente iguais a todas as outras. Pessoas iguais possuem pavor daquilo que é imprevisível. Elas podem deixar de ser elas mesmas. Pessoas diferentes possuem pavor da previsibilidade de serem elas mesmas. Somente aqueles que vão aonde não iriam podem se tornar diferentes… indo… voltando… sendo iguais a elas mesmas. E só. Voltar responde a segunda pergunta: “a viagem veio me visitar depois que voltei?” Todas as pessoas voltam de viagem. Inclusive as iguais que sempre voltam iguais. Mas somente praqueles que um dia… depois de terem voltado… recebem a viagem como visita é que sabem que ela valeu a pena e ela voltou… como uma pessoa que bate à porta da mesma forma que se bateu em algumas durante a viagem. Se a resposta for sim… a viagem valeu a pena. São as pessoas que importam. Nada mais. Nem as portas importam tanto. Ainda que importem. Pessoas são sempre as mais importantes no que se faz. Só as pessoas é que ficam. Os lugares não durarão pra sempre. Fotografias muito menos. As pessoas sim. Elas tornam as pessoas que viajam diferentes. Ainda que a memória se apague a diferença é pra sempre. É por isso que viagens não são feitas de fotografias (daquelas que se tira pra provar que realmente se esteve onde todo mundo esteve)… mas de pessoas. O mais importante não é quantos lugares se visitou (e que se pode comprovar com fotografias) … mas quantas pessoas se conheceu e quantas destas algum dia trazem a viagem de volta. Quantas destas fazem uma visita depois da viagem. Pode se viajar duas vezes pelos mesmos lugares… mas não se pode fazer duas mesmas viagens. As pessoas não mais estarão lá. Algumas estarão visitando aqueles que se preocuparam mais elas do que com as fotografias. Tristes daqueles que olham as suas fotografias e encontram sempre seus sorrisos solitários em frente aos lugares que todo mundo sorri pra fotografia. Não se deve congelar sorrisos. Eles apodrecem quando descongelados no momento em que se mostra pra outras pessoas que ficam… quando se volta. E pra terminar… a terceira pergunta é: “Porra, o que eu to fazendo aqui?!” e somente aqueles que se perguntaram durante a viagem é que sabem que só vale a pena quando ficaram sem resposta (também)… termino aqui. To com visita em casa.

 

Two roads diverged in a wood, and I… I took the one less traveled by… And that has made all the difference.

[Robert Frost]

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